O Currículo do CDF ― Apresentação

Conforme eu lamentei em postagem anterior, sobre O Novo Ensino Médio, o aluno CDF, especialmente o de escola pública, foi deixado completamente desassistido pelas mudanças recentes na BNCC e no PNLD. O Ensino Médio, doravante, servirá bem para a maioria dos estudantes, que encerrarão sua vida escolar nesta etapa, ou que se contentarão com uma faculdadezinha qualquer. (“Fábricas de diplomas” tem aos montes.) O/A estudante mais inteligente que a maioria, e que almeja um curso concorrido numa universidade conceituada, pública ou particular, mais do que nunca precisará estudar além, muito além, do que aquilo que será ensinado no colégio.

O Enem certamente vai se adequar, se tornando mais fácil, cobrando menos conteúdo nas provas do que hoje. Só que isso colocará um dilema para muitas universidades que usam as notas dos estudantes no Enem em seu processo seletivo, por meio do SISU. Se elas continuarem a usar somente o Enem, passarão a receber alunos ainda mais despreparados para os cursos universitários do que já recebem. No atual século, várias universidades criaram disciplinas como “Pré-Cálculo” e “Português Instrumental”, que nada mais são do que disciplinas de nivelamento, pra ensinar aos calouros o que eles deveriam ter aprendido no Ensino Médio. Daqui a pouco terão que criar disciplinas equivalentes ao Português e à Matemática do Ensino Fundamental.

Por outro lado, as universidades podem voltar a realizar seus próprios vestibulares, se desligando do SISU. Aí elas poderão continuar cobrando os conteúdos e raciocínios que elas consideram pré-requisitos mínimos aos candidatos a seus cursos, mas que não serão mais trabalhados no Ensino Médio, e os estudantes que se virem. Nesse caso, as escolas particulares provavelmente complementarão o currículo com aulas extras, pra atender as demandas dos seus alunos. Mas as escolas públicas, com todas as dificuldades que já enfrentam, não poderão fazer o mesmo.

Isso é mais ou menos o que aconteceu com os famosos institutos militares IME e ITA. Ao longo do tempo eles não rebaixaram o nível de cobrança dos seus vestibulares pra acompanhar as sucessivas reformas do Colegial Científico, depois Segundo Grau, atual Ensino Médio, e os candidatos que se virassem. Como resultado, somente quem consegue pagar caro um curso preparatório específico tem alguma chance de entrar nesses institutos. Pois a partir de agora, é capaz do mesmo se dar com as maiores universidades: quem não fizer cursinho, não vai entrar; e, se entrar, vai ter muita dificuldade de acompanhar o curso.

A menos que o/a estudante seja autodidata. Como a razão de ser do Guia do CDF é justamente dar subsídios a esta classe muito especial de estudante, resolvi propor uma iniciativa ousada ‒ ou maluca. Propor um “currículo alternativo” com o que eu considero importante que os estudantes CDFs aprendam não só pra entrar na universidade dos sonhos como também para aguentar o primeiro ano do curso.

Qualquer professor que vir essa proposta vai achar exagerada, “conteudista”, enciclopédica, etc. E é mesmo! Não tem como ser diferente. O mundo atual é muito complexo; exige mais conhecimento sobre vários ramos das ciências e das humanidades para a pessoa exercer sua cidadania, e até pra sair em segurança na rua ‒ como a pandemia da covid-19 está mostrando. Mais do que nunca antes na História da humanidade, a ignorância mata ‒ às centenas de milhares! Se esta já é a realidade para o cidadão e a cidadã comuns, que dirá para aquele e aquela que pretende integrar a elite acadêmica, profissional e intelectual da sociedade.

Fazendo uma analogia, é como a diferença entre as aulas de Educação Física que são ministradas a todos os estudantes e o treinamento especializado para aqueles que desejam ser esportistas profissionais. As atividades leves que os estudantes fazem nas duas ou três horas semanais podem ser suficientes para evitar os males do sedentarismo e incutir neles o saudável gosto pela atividade física. Mas nem de longe são suficientes pra quem sonha ser jogador da seleção brasileira de futebol ou atleta medalhista olímpico! Eles treinam em um dia ‒ todos os dias ‒ mais horas do que os outros estudantes treinam por semana. Mas também não faz sentido dar a todos os estudantes o mesmo treinamento de um atleta!

Pois com os CDFs é parecido. Eles não podem ter a mesma preparação escolar que a maioria dos estudantes. Porque a maioria não está disposta a ser o que os CDFs se sentem destinados a se tornar: trabalhadores do conhecimento, seja na universidade, seja na iniciativa privada, ou ainda no serviço público. A formação escolar deles tem que ser diferenciada: a eles tem que ser ensinado, e deles tem que ser cobrado, muito mais do que à/da maioria dos estudantes. Em suma, o estudante CDF tem que ser tratado como um “atleta do conhecimento” ‒ e estimulado, inclusive, a participar de Olimpíadas de Ciências.

Se eu fosse montar um “curso pré-universitário” baseado no conteúdo programático deste currículo, seria em horário integral (manhã e tarde), de segunda a sábado, com apenas um mês de férias no ano, e duração de quatro anos. (Mas sem dever de casa; todas as atividades realizadas no horário do curso.) Ah, e as folgas dominicais e as férias anuais seriam porque os professores precisariam descansar (a legislação trabalhista obriga), não os alunos.

O Currículo do CDF é isso, uma sugestão de um “voluntário da educação” não-especialista, mas bem informado, sobre o que estudantes de alto desempenho e autodidatas precisam aprender para ingressarem, e permanecerem, nos cursos mais concorridos das melhores universidades. Se você, educador profissional, ou estudioso da Educação, tem uma proposta melhor, apresente! Milhares de estudantes estão, mais do que nunca, necessitados deste suporte e desta orientação. Sob pena de terem seu imenso potencial desperdiçado.

(O Currículo do CDF será detalhado e comentado nas postagens seguintes. Educadores que quiserem nele se inspirar, fiquem à vontade.)

6 comentários sobre “O Currículo do CDF ― Apresentação

  1. Olá Serjão! terminei o ensino médio em 2021 fiz o curso técnico em eletrotécnica integrado ao ensino médio em um instituto federal da minha região. entretanto, não aproveitei o ensino médio com deveria e me formei cheio de deficiências em todas as matéria, e matemática, por exemplo, não sabia nem fazer a operação de divisão da forma correta, mas já estou estou bem melhor em matemática graças aos livros da openstax. em fim, esse problema não é só em matemática é também em física, química, biologia e principalmente em português, pela própria forma como o esse texto está sendo escrito você já deve ter percebido isso. Nas matérias de humanas, história, sociologia, filosofia e geografia eu até tive um bom aproveitamento durante o ensino médio (em filosofia as pessoas até me pagavam para fazer o trabalho delas rs) mas infelizmente não lembro quase de nada dessas matérias.
    apresentei minha situação pois gostaria de uma orientação sua sobre que rumo tomar nos estudos. Eu quero passar em medicina pelo enem, nas faculdades que eu quero UEPA ou UFPA todas as disciplinas tem peso 1 uma média de 800 pontos no enem é suficiente para passar tranquilamente, até mesmo em ampla concorrência, e por sorte eu tenho bonus de 10% na minha nota final e ainda concorro na cota escola publica. mas eu sei que mesmo assim é extremamente difícil passa, mas não impossível. e já que todas as matérias tem peso 1 penso que focar em matemática, ciências da natureza e redação é um boa estratégia pois são as provas em que pode se pontuar mais.
    minha pergunta é a seguinte: o que eu devo fazer para conseguir a aprovação na faculdade de medicina tendo de 1 a dois anos de estudo disponíveis com uma média de 6 a 8 horas disponíveis no dia para estudar? como você recomenda que eu faça o currículo cdf já que eu infelizmente não tenho mais os 4anos disponíveis necessários para cumpri-lo? como completa-lo em dois anos e ficar em um nível competitivo para o vestibular de medicina?
    obs: Não faço cursinho pois os da minha cidade são extremamente caros e eu nunca vi um aluno deles passar em medicina. e também os cursinhos online para medicina são muito caros e eu não tenho acesso a internet todos os dias para pode seguir um cursinho online. estudar por livros em pdf é o que melhor se encaixa na minha situação.
    obs: desde de que eu fiquei maior de idade eu procuro emprego e isso já faz 3 anos mas ainda não consegui, por isso minha única saída é estudar por conta própria, embora eu veja isso como uma vantagem pois posso fazer um estudo focado nas minhas dificuldades.
    em fim, o que você faria se estivesse no meu lugar? qual ordem de estudos seguiria para alcançar esse objetivo?
    ficarei muito grato com suas dicas. muito obrigado pelo conhecimento que você compartilha aqui no blog eles tem um potencial grande de mudar a vida das pessoas.

    Curtido por 1 pessoa

    • Olá Josimar! Como é bom encontrar um jovem determinado e esforçado como você!

      Medicina é mesmo um curso muito concorrido em qualquer boa universidade. Exige mesmo uma preparação muito intensa.

      Primeiro de tudo, acho que você precisa avaliar sua real necessidade de trabalhar. Como você ainda não conseguiu emprego, presumo que você seja sustentado por seus pais ou outros parentes, apesar de já ser maior de idade. Converse com eles, se eles têm condições de manter você por mais um ou dois anos até você entrar na faculdade — e, idealmente, até terminá-la. Se você não vai passar fome se não trabalhar nesse período crítico na sua vida, deixe sua independência financeira pra depois da faculdade.

      Digo isso porque é muito difícil trabalhar e ao mesmo tempo estudar. Você terá mais chances, tanto de ingressar na faculdade, quanto de sair dela formado, se puder estudar o dia inteiro — e não ”apenas” seis ou oito horas! Não estou exagerando. Quem tem reconhecidas deficiências de formação como você precisa estudar praticamente o tempo todo que passa acordado pra alcançar um objetivo ambicioso como o que você se propôs.

      Se você realmente precisar trabalhar para se manter ou complementar a renda da família, você demorará mais para alcançar seu objetivo. Mas você é novo ainda, não será o fim do mundo ingressar na faculdade um pouco mais maduro, com mais de 25 anos, por exemplo. (Mas, é claro, quanto antes, melhor.)

      Falando de idade, aliás, você tem uma vantagem que talvez ainda não tenha se dado conta. Aos 21 anos, sua capacidade de memória e raciocínio são mais desenvolvidas do que quando você tinha 17 ou 18 anos. Você vai conseguir aprender e reter mais conhecimento mais rapidamente. Em um ano de estudos intensivos, dá perfeitamente pra você revisar e aprofundar todo o conteúdo do Ensino Médio.

      Quanto ao que você deve priorizar nos seus estudos, matemática, ciências naturais, português e inglês terão mais peso. (O que não quer dizer que você não precise revisar ciências humanas.) Aliás, o Enem está para mudar nos próximos anos, a fim de adaptar as provas ao novo Ensino Médio. É capaz da prova de Ciências Humanas passar a ter um peso menor pra quem vai fazer Medicina.

      De resto, eu recomendo que você siga o Currículo do CDF, na sequência que detalhei para Medicina. Tenha em mente que esse currículo é um esquema ideal, mas, realisticamente, poucos estudantes teriam condições de segui-lo na íntegra. O que você (e todos) precisam fazer é determinar um “ponto de entrada”, conforme o embasamento que você já tem, um “caminho a seguir”, conforme o seu objetivo (Medicina, no caso), e um “ponto de saída”, conforme o tempo disponível de preparação.

      E aí, você vai avançando nele até onde der. Mesmo que você não chegue ao fim, mesmo que consiga ir só até a metade, com certeza vai estar muito mais preparado que a maioria dos candidatos!

      Ótimos estudos e muito boa sorte pra você!

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